segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Hiperfocal?? Troca-me lá isso por míudos...

É normal. Quando entramos no mundo da fotografia, alguns palavrões assustam. Este é normalmente um daqueles de que ninguém quer saber, até perceber para que serve.

Penedo da Saudade - S. Pedro de Moel, Marinha Grande, Portugal
Canon 5D Mark II, EF 17-40 F4L, ISO 100 F16 a 1/4s


O que é a focagem hiperfocal?


Por definição, a hiperfocal é a distância para além da qual todos os objectos se encontram dentro de uma focagem “aceitável”para uma determinada abertura e distância focal. Está intimamente relacionada com a fotografia de paisagem. É um processo no qual se pretende aumentar ao máximo a profundidade de campo garantindo que a imagem final se encontre totalmente focada, desde o primeiro plano até ao infinito.

A profundidade de campo não muda de focado para desfocado de uma maneira abrupta. Ela acontece gradualmente imediatamente a seguir ou antes do ponto onde focamos. Como não há uma zona crítica onde essa transição seja perceptível, usa-se o termo círculo de confusão para entender o quão grande um ponto precisa de ficar para ser entendido como desfocado.

Círculos de confusão

Em fotografia, o diâmetro de um círculo de confusão é a maior mancha possível (mesmo que esteja fora de foco) que o olho humano entende como um ponto. De um modo geral, se uma imagem for visualizada a uma distância de 25cm, o círculo de confusão terá um diâmetro de 0,2mm. Sendo assim, e como todas as objectivas reproduzem todas as imagens como pontos, todos os pontos com um diâmetro inferior a 0,2mm representam uma zona da imagem focada.


Usando uma grande abertura, os objectos que se encontram dentro da distância focal são projectados em zonas diferentes do sensor. Como consequência, o círculo de confusão é maior levando-nos a entender essa zona como desfocada.

Usando uma pequena abertura, a incidência dos raios de luz no sensor já se faz mais próximo da zona do ponto de focagem, reduzindo assim os círculos de confusão e aproximando os vários elementos que se encontram dentro da distância focal, de uma focagem aceitável.

Concluímos assim que quanto menores forem os círculos de confusão, maior a profundidade de campo. À medida que estes círculos de confusão aumentam de tamanho, os seus contornos ficam menos definidos, resultando em zonas difusas e fora de foco.

Se relacionarmos abertura com profundidade de campo, todos nós aprendemos que quanto mais fechado estiver o diafragma (f16 ou f22), mais profundidade de campo obtemos. Isto é absolutamente correcto em fotografia de paisagem diurna mas em fotografia nocturna a história é diferente. O uso de aberturas pequenas é impraticável devido aos longos tempos de exposição que seriam necessários. O uso da focagem hiperfocal torna-se quase obrigatório de modo a podermos usar uma grande abertura (f4 ou f5.6) e mantermos tudo em foco.

Tenha em atenção que a hiperfocal só deverá ser usada quando existem elementos no 1º plano. Se os objectos mais próximos estiverem a 10-15 metros, use a focagem ao infinito ou foque a 1/3 do plano dependendo do efeito que quiser obter.

Na prática

Uma das leis da óptica diz que a profundidade de campo se estende 1/3 à frente do ponto de focagem e 2/3 atrás deste. Vejamos os seguintes exemplos:


Focando no sujeito, de 1/3 até ao infinito temos tudo em foco mas mantemos o 1º plano fora de foco e fora da profundidade de campo.

Se focarmos ao infinito, ainda tornamos o caso pior. Não só ficamos com o 1º plano desfocado mas também o sujeito.



Ao focarmos no primeiro plano, fazemos com que os objectos mais distantes fiquem fora de foco.


A única maneira de manter todos os elementos focados é usando as distâncias hiperfocais. Dessa maneira conseguimos que o 1º plano, sujeito e infinito fiquem focados.

Então a que distância e como focar?

O uso da focagem hiperfocal pode ser efectuado de 2 maneiras:

1 – Em lentes de foco fixo, a maior parte dos fabricantes imprime uma escala de distâncias hiperfocais na lente para as diferentes aberturas.
Consoante a abertura usada, por ex. f16, basta colocar a marca 16 à direita, debaixo da marca de focagem ao
infinito. A marca 16 do lado esquerdo vai indicar a distância mínima a que estamos a focar. O mesmo acontece para as outras aberturas. O truque aqui é que nem precisamos de ver o que estamos a focar para que a focagem fique correcta. Se olhar pela ocular da câmara, verá que tudo lhe parece fora de foco. Use o botão de previsão de profundidade de campo para prever o resultado final.

2 – Em lentes zoom, a escala impressa nas lentes refere apenas a distância de focagem e não a abertura, isto porque a profundidade de campo depende da distância focal. Numa lente zoom, esta distância é variável e como as hiperfocais não dependem só da abertura mas também da distância focal, isto seria impraticável. Por esse motivo, são usadas tabelas de hiperfocal de acordo com a abertura e distância focal pretendida. Recorrendo à tabela de hiperfocal, e sabendo de antemão qual a abertura e distância focal que vamos utilizar, verificamos na tabela qual a distância de focagem indicada. Para isso é conveniente ter uma correcta percepção das distâncias. Seleccione o ponto indicado pela distância e depois foque ou através da ocular ou através do ecrã LCD. Use o botão de previsão de profundidade de campo para verificar a focagem.


Number 8
- Parque eólico da Falca, Alcobaça, Portugal
Canon 5D Mark II, EF 17-40 F4L, F5.6 a ISO 200, 4 min. de exposição
Focada no último degrau da escada


Não se esqueça que as distâncias são diferentes caso use uma câmara full frame ou com factor crop. Use as seguintes tabelas de acordo com o factor crop da sua câmara. Tabelas com outros factores crop podem ser vistas aqui. Tenha em atenção que o valor indicado na tabela é a distância a que deve focar. A profundidade de campo resultante está compreendida desde metade dessa distância até ao infinito. Como exemplo, se estiver a usar uma câmara full frame e uma distância focal de 24mm a f16, deverá focar a uma distância de 1,22m pelo que a profundidade de campo resultante está compreendida entre 0,61m e o infinito.

Use a focagem hiperfocal apenas quando necessário. É comum ser usada em fotografia de paisagem e apenas quando existem elementos muito próximos que queremos que fiquem focados. Não se esqueça que a hiperfocagem não serve para tudo. Há por vezes elementos numa foto que queremos que fiquem mais focados que outros. Pratique! A prática leva à perfeição!

domingo, 10 de outubro de 2010

Apresentação - MOMENTOS NATURAIS / IMAGENS REAIS

No passado dia 2, no encontro de fotografia Ambiente - Imagens Dispersas 2010, organizado pela associação Amigos do Cáster, apresentei o meu trabalho sob o tema "Momentos Naturais - Imagens Reais". Uma viagem por locais de grande beleza natural do País em fotos diurnas e nocturnas onde são incluídas as longas exposições.
O meu obrigado a todos os que compareceram.
A organização está de parabéns por mais uma vez ter conseguido apresentar um evento com qualidade. Esperamos agora pelo evento de 2011.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Exposição - MOviMENTOS NATURAIS

Desde o dia 2 de Outubro e até ao próximo dia 2 de Novembro, que é possível visitar a exposição "MOviMENTOS NATURAIS" onde irá encontrar um breve resumo do que tem sido o meu trabalho nos últimos 5 anos. Aproveite e visite também as outras exposições de fotografia de natureza - "O Peneireiro das Torres e a planície", de Ricardo Guerreiro e a exposição "Lusitanicus" de Luís Quinta. As exposições estão patentes ao público no Centro de Artes em Ovar.



quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Star Trails - Parte II

Processamento
Se está a ler este artigo, parto do princípio que leu a primeira parte e agora tem algumas fotos de rastos de estrelas à espera de processamento. E por processamento, refiro-me apenas a processamento para eliminar ruído ou juntar várias fotos numa. O processamento normal que se executa para todas as fotos, fica de fora.


Com certeza que usou uma das técnicas descritas na primeira parte do artigo mas vamos ver agora, passo a passo, qual o processamento mais indicado para cada uma delas:

1 – Uma única exposição. Se usou esta opção, recorreu a um de dois métodos: ou ligou a redução de ruído interno da máquina ou não. Caso tenha ligado, não há mais nada a dizer. Se o resultado foi satisfatório, prossiga com o resto do processamento normal (balanço de brancos, nivelamento do horizonte, remoção de manchas, sharp, etc.). Se não ligou a redução de ruído, tem agora duas fotos: uma com os rastos de estrelas e outra negra (Dark Frame) apenas com o ruído. Abra o PhotoShop e de seguida abra as duas imagens lado a lado.



Coloque as imagens lado a lado para executar esta operação

Seleccione a imagem negra e faça Ctrl+A ou Select > Select all. Isto irá seleccionar toda a imagem. Depois seleccione a ferramenta Move e enquanto mantém premida a tecla Shift, clique na imagem e arraste-a para cima da outra imagem, a que possui os rastos. Certifique-se que carrega na tecla Shift até a operação estar concluída. Isto irá obrigar a que as imagens fiquem exactamente centradas e alinhadas. Repare que foi criada uma nova Layer que contém a imagem que sobrepôs.

A imagem ainda aparece preta mas agora precisamos de ir à caixa das Layers. Seleccione a Layer que tem a imagem negra. Vá a Blend Mode e seleccione Difference. Em Oppacity, indique um valor de 50%. Enquanto faz isto vá verificando o resultado final.

O que o PhotoShop fez foi comparar as duas imagens e manter o que estava diferente em cada uma. O que estava igual (os pixeis queimados devido ao ruído) foi eliminado. Faça um Merge Layers (Layer > Merge layers ou Ctrl + E) e guarde a imagem.



Crop a 100% da 1ª imagem <-------> Crop a 100% da Dark Frame

O ruído presente nas duas imagens é bastante notório. Note os dois pontos na zona inferior direita.

Crop a 100% do resultado da junção das duas imagens.
É notória a redução de ruído efectuada. De notar que os dois pontos na zona inferior direita são agora muito menos perceptíveis.

Estas imagens foram captadas com uma Canon 20D e lente EF-S 18-55 F3.5-5.6. Foi usado ISO 100 a F4.5 com uma hora de exposição. Apesar de a Canon 20D possuir baixos níveis de ruído, nas máquinas actuais o ruído é ainda menor, pelo que conseguirá com certeza, obter melhores resultados que os aqui mostrados.

Nota: É importante que quando fizer a imagem negra (Dark frame), o faça exactamente com os mesmos parâmetros que usou para fazer a primeira imagem. Isto inclui igualmente a temperatura ambiente a que a imagem foi feita. Ex: se fotografar no inverno a uma temperatura de 5°C, é conveniente que a imagem negra seja feita à mesma temperatura. Se esta imagem for capturada fora do ambiente onde foi executada a primeira, (por ex. em casa) os níveis de ruído serão diferentes com consequências para o processamento final.

2 – Várias exposições curtas. Caso tenha optado por exposições de 30s, antes de começar a juntar as fotos é preciso ter algo em atenção: é importante que o processamento inicial que deu às fotos seja o mesmo para todas. Caso não o tenha feito, tenha em atenção que o balanço de brancos pode ficar em qualquer posição desde que não seja em automático. Como a luminosidade pode variar, também a máquina pode entender o céu com várias cores em cada foto.

Vamos partir do princípio que fez uma hora de exposição em 120 fotos de 30s. Para processar todas estas fotos, faça download de um software gratuito chamado Startrails em http://www.startrails.de/html/software.html O programa possui apenas 200KB e é bastante leve. No site onde está o software está também uma breve descrição do seu funcionamento. Os comandos estão apenas em inglês mas são muito simples.

Depois de ter o software instalado, abra o programa. Indique onde estão as fotos que quer juntar. Inicie agora o processo e aguarde. Durante o tempo que as fotos são montadas, é possível ver o progresso de todo o trabalho. Quando finalizado, grave a imagem.

Todo este processo pode ser facilmente feito no PhotoShop juntando todas as fotos usado um Blend Mode “lighten”. Se estiver interessado em processar a imagem com mais qualidade, veja o próximo passo do processamento.

3 – Várias exposições longas. Tenha em atenção que este processo é mais moroso e exige mais do computador. Caso tenha optado por 24 fotos de 5 minutos, cada Tiff a 8 bits ocupa cerca de 50 Mb dependendo da resolução. A título de exemplo, num PC com processador Quad Core e 4 GB de RAM rápida, o processo demora aproximadamente 20 minutos apenas para juntar as imagens.
Nota: o processamento indicado foi executado em Photoshop CS4.

Guarde todas as imagens para processamento numa pasta à parte. Abra o PhotoShop e vá a File > Scripts > Load Files into Stack.



Seleccione as imagens ou indique a pasta onde estas estão. Seleccione Create smart object after loading layers.


Se exportou as suas imagens para TIFF, mesmo num PC rápido, este processo leva algum tempo. Depois de estar concluído vai reparar que ainda não existem rastos de estrelas. Não há problema. A partir de agora é que vão começar a aparecer! Vá a Layers > Smart objects > Stack mode > Maximum. Agora já aparecem os rastos de estrelas. Para remover o Smart object, vá a Layers > Flatten image.


O que o PhotoShop fez foi escolher o pixel mais brilhante de cada imagem em todas as layers. Como a posição das estrelas é a única coisa que muda na imagem, facilmente mostra os rastos das estrelas.

Mas isto leva-nos a outro problema. Faça um Zoom a 100% e repare que existem pequenos intervalos no rasto das estrelas.



Se o objectivo for mostrar a imagem na Net com um tamanho de, digamos, 750 pixeis no lado maior, os intervalos nem se notam mas se o objectivo for imprimir em grande formato, eles vão-se notar. Resolver isto à mão está fora de questão pois iria demorar demasiado tempo. Se usarmos a ferramenta Clone para corrigir cada um destes intervalos levamos demasiado tempo. Basta multiplicar o número de estrelas em cada foto pelo número de fotos para vermos que é uma tarefa hercúlea.

Talvez pense que estes pequenos espaços estão lá por causa das pausas de 1 segundo entre fotos mas isso seria imperceptível numa exposição deste tipo. Os espaços estão lá por causa da maneira como o Photoshop juntou as imagens. O processo que descrevo a seguir visa eliminar estes espaços e é ainda mais moroso. Exige um reprocessamento das fotos e aconselho a usá-lo apenas se pretender fazer uma impressão em grande formato.

O primeiro passo é reprocessar as fotos de um modo “linear”. O fundamental aqui é alterar ao mínimo as fotos. O que significa, não mexer no contraste, níveis, curvas, etc. Deixe todos os valores a zero excepto o balanço de brancos e a saturação / vibrance. A imagem vai perder contraste mas isso será depois resolvido. Baixe a exposição em 1 stop e exporte em 16 bits.

Vá a File > Scripts > Load Files into Stack e indique onde estão as imagens ou a pasta que contém as imagens. Certifique-se agora que a opção Create smart object after loading layers não fica seleccionada.


Vai ficar agora com as seguintes layers: 01.tif, 02.tif, 03.tif, 04.tif, … 24.tif (o nome das layers é apenas um exemplo).
É necessário agora duplicar todas as layers excepto a primeira e a última:
01.tif, 02.tif, 02.tif copy, 03.tif, 03.tif copy, 04.tif, 04.tif copy, etc.


Agora seleccione todas as layers que não são cópia, excepto a primeira e a última e altere o “blend mode” para “screen” (provavelmente terá de fazer isto individualmente). Seleccione agora a layer 02.tif e a 01.tif e faça um “merge” (Layer > Merge Layers ou Ctrl + E). Agora seleccione a layer resultante e altere o “blend mode” para “lighten”. Faça agora o mesmo para as restantes layers. Seleccione a layer 03.tif e 02.tif copy e faça um merge. Passe a layer resultante para “lighten”. Seleccione a layer 04.tif e 03.tif copy e faça um merge. Passe a layer resultante para “lighten” e proceda da mesma maneira para as restantes fotos. A imagem final vai aparecer quase sem nenhum contraste. Isso foi devido ao processamento linear que fizemos inicialmente. Repare que os espaços estão agora preenchidos (caso isso não aconteça, verifique a conversão RAW dos ficheiros iniciais e a maneira como fez o merge das layers. É importante que todos estes passos sejam respeitados). Pode proceder agora ao processamento normal.

Polar Rotation - Pinhal do Rei, Marinha Grande, Portugal
Canon 5D Mark II, EF 17-40 F4L, F8 a ISO 100, 2 horas de exposição (24x5min.), em Lua cheia

Fazer fotografia de rastos de estrelas, exige muito em termos técnicos e de tempo mas os resultados podem ser recompensadores. Tenha sempre em atenção que o ideal é executar uma única exposição e deixar a máquina executar a redução de ruído. Existem várias técnicas para processar o ruído das imagens e montá-las. O stacking de imagens é muito comum em astrofotografia. Há no mercado vários programas apenas com essa função e que são utilizados por astrofotógrafos. Se quiser levar isto um pouco mais a sério, compre um cabo com intervalómetro. Lembre-se também que uma foto de rastos de estrelas não é apenas interessante por causa das estrelas. O primeiro plano também importa!

domingo, 11 de julho de 2010

Star Trails - Parte I

Fazer as fotos
Você está num local calmo, tranquilo. É fim do dia e o Sol já se pôs, fazendo com que o céu mostre as suas cores mágicas do crepúsculo, do rosa até ao azul-escuro. As primeiras estrelas começam a cintilar. Primeiro aparecem as mais brilhantes e à medida que o sol desce mais sob a linha de horizonte, as estrelas com um brilho mais ténue, fazem também a sua aparição. Não há vento e é Lua nova. A maior parte dos fotógrafos começa a arrumar o seu material e a voltar a casa pois a luz já é escassa. Mas é agora que o espectáculo vai começar. A via láctea faz a sua aparição e se o local onde estiver for longe de localidades (leia-se poluição luminosa), ela aparece em todo o seu esplendor. As estrelas brilham com cada vez mais intensidade.

Pine Tree Star Trails - Pinhal do Rei, Marinha Grande, Portugal
Canon 20D, EF-S 18-55 F3.5-5.6, F4.5 a ISO 100, 45min. de exposição em Lua Nova


Mas agora coloca-se a seguinte questão: como capturar este céu maravilhoso? De certeza que já tentou mas talvez ainda não tenha conseguido captar aquelas estrelas bem focadas, a cor do céu não saiu correcta ou talvez não saiba como localizar a estrela polar. Neste artigo vou mostrar como executar com sucesso fotografia de rastos de estrelas, qual a melhor altura para o fazer e todo o planeamento necessário.


Planeamento
Uma fotografia de rastos de estrelas pode imediatamente tornar-se vulgar. O que a faz destacar-se é a composição e a maneira como os objectos do primeiro plano se relacionam com o fundo. Mais do que na fotografia diurna, uma foto nocturna exige em muitos casos um conhecimento prévio do local a fotografar, do que se quer fotografar, das condições atmosféricas e da altura do dia. Obviamente que será de noite mas é conveniente saber se será ao principio ou a meio da noite.

Imaginemos que já sabe o que quer fotografar. Há agora alguns factores que importa ter em consideração:
Local: o mais longe possível de localidades! Afaste-se da poluição luminosa pois esta normalmente deixa um tom laranja no céu que dificilmente conseguirá remover no processamento.
Fases da Lua:
O ideal é fotografar com a Lua nova. Assim haverá menos luz no céu, deixando brilhar as estrelas mais
fracas. A situação a evitar é a Lua cheia. Se houver um pouco de Lua no céu isso até pode resultar num bom efeito.
Vento:
É algo a evitar. O vento pode causar um efeito de movimento em vários elementos na foto mas tende a ser desagradável podendo até provocar vibrações no tripé, oscilando a imagem, o que resultará numa imagem tremida.
Humidade: De acordo com o local onde pretende tirar a foto, a humidade pode variar entre os 30% e 80%. Se a humidade estiver acima dos 70%, arrume o equipamento e desfrute do céu estrelado. Uma longa exposição faz com que a humidade se acumule na lente arruinando a foto que você tão arduamente idealizou.
Condições atmosféricas:
Tenha atenção às súbitas mudanças de tempo. É conveniente saber se o tempo se vai manter estável pois a sua exposição pode atingir várias horas. Salvo algumas situações, o aparecimento de nuvens pode arruinar uma foto. Fotografe sempre com céu limpo!

Para além do planeamento é conveniente ter outros factores em consideração:
• Use um GPS. Será útil para localizar o carro e conhecer o caminho de volta. Em escuridão total é fácil perdermo-nos.
• Leve consigo uma lanterna de mão ou frontal. Não se esqueça das pilhas!
• Leve sempre água consigo. Pode também levar algumas barras energéticas ou outro tipo de alimento.
• Um banco também é aconselhável mas isto depende do local onde vai fazer a foto.
• Leve SEMPRE um chapéu consigo. 40% do calor corporal perde-se através da cabeça. Seja Verão ou Inverno, um chapéu é sempre útil.
• Diga sempre para onde vai e de preferência não saia sozinho!

O equipamento fotográfico
• Máquina SLR
• Lente (de preferência grande-angular) com pára-sol para protecção contra a humidade
• Cabo disparador (se for programável, melhor!)
• Tripé
• Baterias carregadas
• Bússola (para descobrir o norte à noite)
Tenha atenção que as baterias comportam-se de maneira diferente consoante a temperatura ambiente. No Inverno, com temperaturas baixas na ordem dos 0°-5°C a vida das baterias pode ser reduzida a menos de metade e em noites de Verão com temperaturas de 20°-24°C pode até duplicar. Lembre-se também que a temperatura ambiente influencia o ruído digital da sua máquina: mais frio, menos ruído; mais calor, mais ruído.

Ruído digital
Em fotografia nocturna, especialmente em longas exposições, o ruído digital é o inimigo nº1 do fotógrafo. Mas o que é isso do ruído? Ruído digital mostra-se numa fotografia como grão podendo alguns desses grãos possuir várias cores. É criado quando a corrente eléctrica passa no sensor aquecendo mais ou menos alguns dos fotodíodos ficando estes com uma cor ou luminosidade diferente do que seria esperado. Á medida que a exposição se torna mais longa, o nível de ruído tende a aumentar. Em noites muito frias (-5°-0°C) isto acaba por nem ser um problema mas nas noites quentes de Verão devemos sempre pensar em como o eliminar. Existem duas formas de o fazer: ou usando o modo de eliminação de ruído da máquina (long exposure noise reduction) ou usando as chamadas Dark Frames ou ainda fazendo várias fotos e depois montá-las umas em cima das outras.Usar a redução de ruído da própria câmara significa que para por ex. 1 hora de exposição, a câmara demora mais 1 hora a processar o ruído. Com bons resultados, é certo, mas é muito tempo para saber como fica a foto e nalguns casos, é uma espera de 2 horas apenas para descobrir que não temos o resultado que queríamos. Usar o método das Dark Frames não significa que o tempo de espera seja reduzido mas permite ver a exposição assim que ela termina. Depois podemos decidir se avançamos com a redução de ruído para finalizar a foto. Sem mexer qualquer parâmetro da câmara, e mantendo as mesmas condições de temperatura, basta colocar a tampa na lente e voltar a tirar uma foto com o mesmo tempo da primeira. A foto vai sair toda negra apenas com o registo do ruído. Depois são montadas em Photoshop, anulando assim o ruído. Isto não é mais do que o mesmo processo que a câmara utiliza quando tem a redução de ruído ligada. Fazer várias exposições com a redução de ruído desligada e depois montá-las por software tem-se revelado a solução mais eficaz para combater o ruído.

A exposição
Existem vários factores que podem condicionar a exposição. Aconselho a experimentar vários mas os dois que afectam maioritariamente a exposição são a abertura e sensibilidade ISO. A velocidade de disparo apenas controla o quão longos serão os rastos das estrelas. Os parâmetros podem mudar de acordo com o tipo de câmara a usar mas como orientação e tendo em conta uma noite de Lua nova, podemos usar F5.6 e ISO 400.Um dos erros mais comuns em fotografia de rastos de estrelas é estes serem demasiado curtos. Sei que muitos fotógrafos cortam a exposição demasiado cedo com medo do ruído no sensor digital mas com as máquinas mais recentes isso praticamente deixou de ser um problema. Uma foto com rastos de estrelas curtos e uma má composição é desinteressante. Ao usar uma grande angular (entre os 16 e os 24mm) use no mínimo, um tempo de exposição de 2 horas. Isto irá criar rastos de estrelas aceitáveis, sendo muito mais evidente a rotação das estrelas.

Mesmo em exposições curtas, o movimento das estrelas é notório

Descobrir a polar
Se levar uma bússola consigo, irá quase acertar na direcção da estrela polar. Digo quase porque a bússola aponta o Norte magnético enquanto a polar aponta o Norte verdadeiro. A solução passa por saber onde fica a estrela polar e para isso é fundamental possuir algum conhecimento do céu nocturno.


Contrariamente ao que muita gente pensa, a estrela polar não é a mais brilhante no céu. Se procurarmos a mais brilhante no céu, corremos o risco de apontar para um planeta. Júpiter, Marte e Vénus são os mais facilmente visíveis mas apenas identificáveis a Este, Sul e Oeste. Se tiver uma bússola consigo, tente virar-se para Norte. Procure no céu uma figura igual à que está no esquema. A constelação da Ursa Maior é facilmente identificável no céu nocturno. As suas estrelas possuem quase todas o mesmo brilho e não existem estrelas mais brilhantes por perto, ajudando na identificação. Após identificar a constelação, procure Merak e Dubhe. Agora tente imaginar uma linha recta a passar nestas duas estrelas. A estrela mais brilhante que aparecer perto dessa recta e para fora da constelação será a Polar. É impossível falhar pois num raio de 30° não há estrelas mais brilhantes.

É sobre a polar que todas as outras estrelas rodam. O movimento de rotação faz-se à direita da polar no sentido contrário aos ponteiros do relógio (sobem à direita). Consequentemente, o movimento é feito no sentido dos ponteiros do relógio, quando estamos virados para Sul.

Conhecendo a rotação e sentido de deslocação das estrelas, é possível até, olhar para qualquer foto de rastos de estrelas e saber para onde a câmara estava orientada. Para quem estiver no hemisfério Sul, o sentido e rotação das estrelas processa-se no sentido contrário.

Fazer a foto
Se levou em consideração as informações aqui escritas, está agora num local afastado de localidades, há pouco vento, a humidade relativa é baixa e já sabe onde está a Polar. O Sol já desceu no horizonte e agora só falta saber uma coisa: quando começar a exposição! Temporizar a exposição pode determinar o sucesso de uma fotografia. Quando a noite vai longa, as estrelas brilham intensamente no céu mas tudo o resto ficará muito escuro a não ser que opte por pintar com luz alguns dos elementos que incluiu na sua foto. Mas todo o primeiro plano continua escuro. Uma das possibilidades de iluminar o primeiro plano é começar a exposição durante o crepúsculo náutico, sensivelmente uma hora após o pôr-do-sol. O céu ainda possui uma leve coloração azul iluminando ainda alguns elementos do primeiro plano. Mas tudo isto depende do tipo de primeiro plano que tem na sua foto. Um plano mais claro reflecte mais luz, necessitando por isso de menos tempo de exposição. Usando F5.6 e ISO 400 em 20-24 exposições de 5 minutos e montadas no Photoshop, dá normalmente bons resultados.Em vez de temporizar ao crepúsculo náutico, podemos temporizar de acordo com a Lua, sabendo em que fase está e a que horas aparece no horizonte. O complicado nesta situação é gerir o tempo de exposição com luz da Lua. Se for muita, pode fazer com que as estrelas capturadas antes (quando a Lua ainda não tinha nascido) fiquem mais ténues perdendo o efeito principal da foto. Se for pouca, arriscamo-nos a ter uma foto escura onde apenas são visíveis os rastos de estrelas.

Montado Star Trails - Barrancos, Alentejo, Portugal
Canon 5DMark II, EF 17-40 F4L, F5.6 a ISO 320, 2 horas exposição (24x5min.)
Últimos 20 min. de exposição com a luz da Lua. Azinheira iluminada com lanterna


As diferentes técnicas
Existem diferentes técnicas para fazer uma foto de rastos de estrelas:

1 – Uma única exposição. Esta foi e ainda é a técnica usada por muitos. No tempo do filme era mais fácil fazer exposições de 5 a 8 horas com excelentes resultados mas na era do digital, o ruído electrónico do sensor não permite ir além das 2 horas de exposição com bons resultados. Fazer uma única exposição é algo a ter em conta, especialmente se pensarmos em submeter a imagem a um concurso internacional, já que nos mais importantes não é permitida a montagem de imagens. Usar uma única exposição comporta riscos. É preciso conhecer muito bem o equipamento e entender as condições de luz para que a imagem não fique sobreexposta. Quanto mais baixo o valor de ISO, melhor. É conveniente sabermos com muita certeza o que estamos a fazer pois se vamos dedicar 2 horas a uma única exposição, é de todo aconselhável que saia bem à primeira. O único senão é que uma única exposição que dure 2 horas, irá durar mais 2 quando a máquina executar a redução de ruído logo após o término da exposição.

Western Star Trails - Praia da Polvoeira, Alcobaça, Portugal
Canon 5D Mark II, EF 17-40 F4L, F5.6 a ISO 100, 2 horas exposição em Lua nova


2 – Várias exposições curtas. Ultimamente é o método mais comum. Consiste em fazer várias exposições de 30 segundos e depois montá-las no Photoshop ou no Startrails. É um método que permite incluir muitas estrelas na foto enchendo todo o céu de rastos. Como os valores de ISO usados são muito altos (entre 400 e 800) é conveniente não apanhar aviões a passar na foto. Este é o método que se deve usar em fotos de rastos de estrelas perto de zonas urbanas. Visto termos de fazer muitas fotos, (120 por hora) é conveniente verificar o espaço no cartão e o estado das baterias. Em fotos RAW, numa máquina de 21mp e com um ISO de 800, cada foto ocupa aprox. cerca de 32Mb x 240 (para 2 horas) dá quase 8Gb de fotos! É fundamental desligar a redução de ruído da máquina para que as estrelas não apareçam intermitentes. Como todas as fotos serão montadas, o ruído irá desaparecer no processamento.

Walking the Stars - Praia das Pedras Negras, Marinha Grande, Portugal
Canon 20D, EF-S 18-55 F3.5-5.6, F4 a ISO 400, 1 hora de exposição (120x30s)

Iluminação com lanterna por baixo do passadiço de madeira

3 – Várias exposições longas. Um método usado há relativamente pouco tempo mas que oferece excelentes resultados. Exige mais processamento que o método anterior, sobretudo se quiser uma imagem de grande qualidade e que possa ser impressa em grande formato. A vantagem é que com várias exposições longas (5 min.) podemos capturar mais luz e tornar o processamento num exercício mais rápido pois em vez de umas centenas de fotos para processar, temos apenas umas dezenas. O pouco espaço em cartão que ocupam é também uma vantagem a considerar.

Spotting the Stars and fires - Pinhal do Rei, Marinha Grande, Portugal
Canon 5D Mark II, EF-17-40 F4L, F5.6 a ISO 400, 3 horas exposição (36x5min.)


Capturar a imagem
O procedimento para fazer as fotos pouco muda, independentemente da técnica a usar. Seja uma ou várias fotos, a composição deve ser sempre bem estudada. Devemos sempre ter a capacidade de visualizar o resultado final.
Partindo do principio que estudou o local para onde vai fotografar, certifique-se que chega com antecedência. Isso dar-lhe-á tempo para preparar todo o material e resolver alguns imprevistos.
Monte o tripé e certifique-se que este está bastante estável. Caso não esteja, o vento pode causar vibrações e se estiver num solo arenoso este pode mover-se ao fim de algum tempo.
Nivele o horizonte e foque adequadamente. Se não houver objectos no primeiro plano (a pelo menos uma distância de 15m), foque ao infinito caso contrário use uma tabela de focagem hiperfocal (brevemente um artigo sobre esta técnica).
Se optar por apenas uma foto, digamos que com uma exposição de uma hora, ligue a redução de ruído da máquina, ou deixe-a desligada e faça um Dark Frame. Se optar por várias fotos deixe-a desligada. Use uma abertura entre F5.6 e F8 consoante a luz que tem no céu. A sensibilidade ISO depende do tempo de exposição que pretender. Para uma única exposição opte por ISO 100. Para várias exposições curtas (30”) use ISO 400 ou 800. Para várias exposições longas (5 min.) use ISO 400. Lembre-se que estes valores são apenas de referência. Não há uma fórmula certa para fotos deste tipo. Quanto ao balanço de brancos, embora não seja importante, pois pode ser modificado no processamento, seleccione Tungsténio pois ajuda a ver a foto com o aspecto mais parecido com o resultado final.

Como já foi falado acima, o uso de um cabo disparador é obrigatório, não só para não transmitir vibrações à câmara para também para que possa trancar a exposição. Se optar por apenas uma imagem, coloque a sua câmara em posição Bulb ou B. Nalgumas câmaras está na opção M – Manual, logo a seguir aos 30”. Seleccione o modo de disparo para apenas uma foto (aquele pequeno rectângulo que aparece no visor). Inicie e tranque a exposição. Se tiver um cronómetro consigo, inicie-o na mesma altura da exposição pois algumas câmaras só possuem contador até 999 segundos. Se optar por várias exposições curtas de 30”, coloque a câmara nessa opção e escolha o modo de disparo sequencial (aquele onde aparecem vários rectângulos sobrepostos). Inicie e tranque a exposição. Como a máquina está em modo sequencial, assim que terminar uma foto, inicia logo a próxima sem pausas. Tenha atenção ao espaço em cartão!
Para executar várias exposições longas e seguidas, aconselho um cabo disparador com intervalómetro. Este comando permite controlar o tempo da exposição e se o fazemos sequencialmente. Fazer este tipo de exposições sem este cabo é quase impossível. Coloque a câmara em Bulb e introduza os tempos que necessita no cabo disparador. Inicie a exposição e vá contando as fotos.
De preferência, fotografe em RAW.

Agora que tem as fotos que quer, é altura de as processar para ver qual o resultado final. Isso é um assunto para a segunda parte deste artigo.